terça-feira, 2 de abril de 2019

História e Memória

O

presente texto tentará abordar questões historiográficas sobre a relação entre história e memória. Entendemos que o conceito de memória e história estão em um campo de disputas. Portanto, as relações entre ambos se modifica a todo instante a passo de novas questões científicas.


História e memória são dois conceitos diferentes, mas não deixam de ter suas semelhanças. História e memória têm um mesmo recorte que é o de presente e passado. Ambos passam por este recorte porque da consciência de tempo. A História, como ciência, faz uso da memória em suas investigações. O papel que a história da sobre a memória é de investigar sobre as noções que o presente tem sobre o passado. Ambas estão em constante diálogo.


A História não é um acumula de memórias, colocando o historiador como um catalogador de memórias e selecionando os principais fatos. Esta relação se daria em um compreendimento de história no sentido Positivista. Por isso, afirmar como se dá a relação entre História e memória é entender a que história falamos.


Neste texto, compreendo a História pela ótica dos Annales, segundo Lucien Febvre, o passado só serve para nós quando ele nos possibilitar pensar e refletir o presente. Neste modo o historiador em suas investigações, analisa estas memórias, cruza suas percepções, contextualiza o mundo social ao qual está sendo atribuída.


A história é uma análise crítica do passado. Usa teorias, e interpretar o passado. A história cientifica para se constituir ela precisa de um respaldo teórico e metodológico.


A memória é um compartilhamento de discursos e lembranças sobre o passado. É um conhecimento ancorado no presente. Então, esta ligado aos interesses e visões de mundos no presente. Sem muito senso crítico. Ela não esta interessadas em questões do mundo academico. A memória não é história em si, porque não tem em sua prática a preocupação de se existir a partir de métodos científicos. Já a história, tem muito interesse sobre a memória, porque a utiliza como fonte de analise.


As memórias tanto podem ser coletivas, quanto individuais. Por objeto de pesquisa, o historiador trata preferencialmente de memórias coletivas. Existem estudos que apontam sobre memórias individuais, mas estes sempre estão ligado em um contexto social. Segundo Le Goff em “História e memória”. A construção da memória coletiva é semelhante a individual. Seria a aproximação destas memórias por associações e traumas em comum. Assim, entendemos que a memória é um agente que cria identidades. Se compartilha visões sobre um passado, que por consequência se dá sentido ao presente e visões de futuro.


Le Goff chama atenção nas etapas de desenvolvimento da memória em sociedade. Sua forma de transmissão coincide com o processo de construção do registro. Entre as sociedades que predominantemente se tem a forma oral como registro histórico a memória é constantemente reiterada.


O Registro da escrita da memória serve como instrumento de controle pro Estado. Segundo Le Goff, na idade média a criação de monumentos, epigrafos e documentos escritos foi apropriado por grupos sociais para representarem uma “memória coletiva”. Sendo que estaria mais ligado a visões de quem produziu, ou seja, reis, imperadores. E memórias individuais estariam tomando espaço de outros. Por isso o Estado é uma esfera que disputa memórias. Monumento/documento.


Elementos que constituem a memória: Eventos do passado vivido. Eventos vividos por “tabela”. Memórias de traumas coletivos. Memórias compartilhadas conectam p


essoas por traumas em comum. Diferença entre memória e lembrança. Memória é você se identificar, lembrança é o que viveu. Memórias são construídas por personagens. Lugares de memória.


Memória é um conhecimento do passado guiado pelo presente. Conhecimento que é das lembranças individuais mas participa de um jogo de interesses. Normalmente a memória glorifica ou demoniza o passado ao qual se refere. E ela carrega julgamentos morais, que podem ir mudando com o tempo. É um conhecimento do passado que são construídos por interesses do presente, tanto economico quanto político. Nas necessidades de sua época.


Ao exercer seu ofício o historiador está constantemente mexendo as estruturas que solidificaram um passado. Portanto, as ações de investigação sobre o passado disputam a memória dos seus contemporâneos sobre o objeto estudado. A memória não deve ser vista como algo passivo, ela está em um campo de disputa política.


As memórias sobre o passado não são de mão únicas. Cada fato histórico possui várias visões e interpretações. Existe memórias individuais e memórias coletivas. As coletivas são questões que determinadas sociedades compartilham. Essas memórias geralmente são sustentadas pelo Estado. As escolhas que o Estado tem sobre as memórias possuem objetivos claros. É o exemplo que temos nas construções de identidades do Estado-nação. Os sentimentos de de pertencimento de uma nação, se vem pela construção de uma memória. O orgulho em cada sujeito em reconhecer um território geográfico como seu faz partes destas disputas.





A memória do Estado não é uma esfera homogênea de um único caminho. Michel Pollak, em Memória, Esquecimento e Silêncio de 1989, analisa as posições do governo Russo sobre as ações cometidas a vítimas por Stalin. As vozes destas vitimas produziam “memórias alternativas” e ficaram marginalizadas e em constante luta por um momento em que pudesse vir a público.


Aqui nos aparece o problema dos silenciamentos de memória. Este é um problema frequente nos debates de história oral. Precisa-se entender a diferença entre “silenciamento” e “esquecimento”. Muitas vezes o entrevistado se silencia sobre determinado tema, não significa esquecimento. Muitas vezes estamos falando de traumas, ou de assuntos que envolvem algum tipo de proibição que interfere nas falas dos sujeitos.


Muitas interpretações pensam no Estado como agente que constrói uma memória positivista. Nesta linha o Estado não se olham as contradições sociais, enaltecem os heróis da pátria, líderes políticos e grandes feitos. Eu concordo em partes com este pensamento. Porém, o Estado é um órgão de disputa de classes, porque em tese é democrático. O que é interessante pensar sobre a questão da memória é: quando a disputa pelas legislações do Estado estão voltadas para a classe hegemonica, que memória tenta ganhar espaço? A memória que o Estado quer lembrar também está em disputa.


Os movimentos sociais são uma forma de disputa da memória. Por vezes, são expressões de indignação da sociedade sobre o Estado. O que gera um conflito entre ambas as partes.


O estudo na história sobre memória surge na década de 70 com a chamada “Nova História”. No entanto, é preciso refletir os limites de ambas.





Então, a história precisa analisar, problematizar, questionar e investigar o passado. A história neste sentido não opera apenas tentando refazer o passado, mas tentando analisar o que compõe as memórias sobre ele.


A memória é uma ferramenta poderosa para a construção das identidades sociais. Um exemplo disso é a identidade nacional. As ações políticas são justificadas por memórias construídas. Então o Estado investe nesta construção. Um espaço utilizado para isto são os museus históricos. O historiador deve olhar para estes espaços com um olhar de estranheza, não apenas consumir a informação, mas se questionar que memórias estes museus trazem.


Segundo Pierre Nora, museu que constroem histórias enaltecendo a chegada dos pioneiros excluindo conflitos gerados da época acabam criando uma visão unilateral da história.





RESENHA:


Em um livro sobre os problemas historiograficos ao qual se depara o historiador,Dea Fenelon, organiza um livro onde emergem diferentes debates sobre a relação de história e memória. Um dos princiapais objetivos do livro é questionar a historiografia de versões “autorizadas” da história, invisiabilizando outras narrativas. Por isto, ela compreende que a história é uma disputa política, e seu livro se apresenta como a importância material de se estudar estas narrativas. Para ela, a memória tem um caracter ativo na construção da história. Ao abordar novas memórias sobre o passado, é abordar as versões que este passado é construído. A autora demonstra uma preocupação constante no caracter que diz respeito a memória como um agente ativo social. Pois para ela, a forma como o sujeito entende seus passado, faz com que ele se projete no presente e tenha perspectivas sobre o futuro.





- Questionar a “historiografia que se proclamam versões autorizadas dos acontecimentos e que produzem a invisibilidade e a inaudibilidade dos dissentes, bem como o apagamento dos vestígios de suas memórias e histórias”


“enfatizar o caráter ativo da memória na construção da história”


“Preocupação com os movimentos sociais e não apenas com o movimento operário”


Culturas é aqui tomada como expressão de todas as dimensões da vida, incluindo valores, sentimentos, emoções, hábitos, costumes e, portanto, associada a diferentes tipos de realidade


E mais: orienta-se para o futuro, já que a nossa perspectiva é a de transformar este presente e nossa inspiração é a vontade de buscar a utopia”





Dentro do livro organizado por Dea fenelon, Muitas memórias, outras histórias. Yahara khoury apresenta interessantes reflexões sobre a discussão de memória. Segunda seus estudos, observou que o modo com as pessoas lidam com o passado esclarece o seu presente enquanto valores. Ao narrar o passado, as pessoas se projetam como seres sociais. Constroem e interpretan a realidade vivida. É preciso entender as narrativas como movimento histórico.





Yahara KHOURY


“Por meio do diálogo com pessoas, observamos, de maneira especial, modos como lidam com o passado e como esse passado continua a interpelar o presente enquanto valores e referências”


; procuramos desconstruir processos sociais de produção da memória


Ao narrar, as pessoas interpretam a realidade vivida, construindo enredos sobre essa realidade, a partir de seu próprio ponto de vista





“Lidar com as narrativas requer pensa-las no movimento da história


“Nosso interesse é trabalhar a narrativa oral no movimento da história; como uma prática social, ela tem sua própria historicidade; o narrador constrói sua identidade, fazendo uso dos elementos de sua cultura e historicidade e recorrendo a um passado significado e resinificado no presente”


“Lidar com o tempo nas narrativas é também lidar com a memória. A fala oral está sempre impregnada de memória. Nas conversas estamos em contato direto com modos como as pessoas costumam significar o passado, marcar e usar o tempo


“Estamos habituados a uma divisão sacralizada do tempo histórico em grandes períodos”.


“Datar um evento não é simplesmente coloca-lo numa sequência cronológica, mas decidir a que sequencia pertence”





“Ao narrar, as pessoas estão sempre fazendo referência ao passado e projetando imagens, numa relação imbricada com a consciência de si mesmos, ou daquilo que elas próprias aspiram ser na realidade social” p. 131.


“Os silêncios são poderosas acumulações de energia, invisível, mas carregadas de significados” p. 132.


“Essas questão da memória articula-se, também, à problemática das identidades”





Dalva silva, as memórias ganham novos sentidos cada vez que são narradas. Entre o momento da narração e o momento sobre qual o sujeito narra, precisa-se entender o processo a que levou este sujeito a estas conclusões. As experiências dos sujeitos fazem ele se construir e se relacionar em diferentes posições com o passado.





Le goff- “A tomada de consciência da construção do fato histórico, da não-inocência do documento lançou uma luz reveladora sobre os processos de manipulação que se manifestam em todos os níveis da constituição do saber histórico” p.


A história é uma prática social, uma questão política. “... é legítimo observar que a leitura da história do mundo se articula sobre uma vontade de transformá-lo”


O fato é uma criação do historiador que reconhece uma realidade como importante para entrar no discurso.


“Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva”


todo documento tem em si um caráter de monumento.


A memória coletiva é um objeto de poder.


Memória: fazer recordar.





“O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa”

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